Uma contradição particularmente inquietante na experiência social é a percepção de que ter a capacidade de pensar não garante estar disposto a pensar de maneira crítica. O ser humano é naturalmente capaz de questionar seu entorno, rever conceitos, analisar evidências e ressignificar sua interpretação da realidade. Embora dotado de todas essas capacidades, elas, em geral, podem ser utilizadas para proteger uma crença já construída. É um comportamento facilmente observável: utilizar as habilidades cognitivas para argumentar em favor de manter aquilo em que acredita e não racionalizar sobre contrapontos apresentados.
O
erro não é o problema. Grandes estudiosos como Piaget e Vygotsky diriam que o
erro é parte inevitável, e até impulsionadora, no processo de aprendizagem. No
entanto, é possível identificar quando a possibilidade de estar errado se torna
intolerável? Quando questionar uma crença representa uma ameaça à identidade? Quando
qualquer evidencia contrária se torna um ataque pessoal? É a partir daí que o
pensamento deixa de ser um instrumento de investigação e passa a funcionar como
mecanismo de defesa.
O paradoxo está em utilizar a própria capacidade intelectual para evitar o exercício que poderia desenvolvê-la.
O desenvolvimento do raciocínio não acontece apenas a partir do acúmulo de informações. É essencial aprender a reproduzir conceitos, reconhecer fatos e memorizar fórmulas, o que não quer dizer, necessariamente, que se compreenda as relações que sustentam esses pontos. Compreender exige que se estabeleça conexões, identifique contradições, formule hipóteses e, por fim, questione todos os passos anteriores a fim de avaliar com criticidade as respostas às perguntas que fazemos. A questão, portanto, é até que ponto o indivíduo está disposto a utilizar de suas capacidades cognitivas para questionar crenças que são tratadas como fatos?
Uma
habilidade não exercitada pode ser perdida, ou pelo menos drasticamente
reduzida, enquanto uma habilidade praticada tende a ser expandida e
transformada em outras habilidades. Dessa forma, existe uma responsabilidade
individual no modo como nossas ideias são trabalhadas, ainda que possam ser
amplamente influenciadas por fatores externos como o acesso à educação, as
redes sociais, a exposição a informações falsas e as condições psicológicas e
emocionais de cada um. Contudo, o reconhecimento desses fatores não exime o
indivíduo da escolha de permanecer passivo diante de oportunidades, e
necessidades, reais de investigação, aprendizagem e revisão de crenças e
conceitos adquiridos ao longo da vida.
É
ainda mais difícil desconstruir crenças quando essas estão altamente atreladas
à identidade, fatores religiosos, opiniões políticas e ao pertencimento a um
grupo. Uma ideia deixa de ser apenas uma ideia e passa a ser uma agressão à
maneira como alguém compreende a própria história e sua posição no meio social.
O que chama atenção é a assimetria. Uma pessoa que aceita uma informação sem
examiná-la quando ela confirma suas convicções, mas rejeita informações
equivalentes quando as contradizem, não está utilizando o mesmo critério para
avaliar as duas situações. O resultado da investigação está decidido antes
mesmo de ela começar. A verdade deixa de ser aquilo que procuramos descobrir e
passa a ser aquilo que precisamos defender.
Para reconhecer que um conceito não foi compreendido, é necessário admitir uma limitação do conhecimento prévio. Para perceber um raciocínio raso, é preciso ser capaz de examinar o próprio raciocínio. Para corrigir um erro, é imperativo admitir a possibilidade de que uma interpretação inicial estivesse equivocada. É possível construir um raciocínio extremamente sofisticado para sustentar uma conclusão equivocada. A inteligência, quando colocada a serviço da defesa incondicional de crenças, pode produzir justificativas cada vez mais elaboradas sem aproximar o indivíduo da verdade. O pensamento crítico exige algo mais difícil do que encontrar argumentos, exige submetê-los aos mesmos critérios, inclusive quando isso ameaça as próprias conclusões.
A
inteligência não é uma garantia automática de lucidez. O conhecimento não é uma
garantia automática de sabedoria. E a possibilidade de pensar não assegura que
escolheremos fazê-lo de maneira crítica. O verdadeiro obstáculo ao conhecimento
não é o erro. É a recusa em reconhecê-lo como possibilidade.


































